quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

leitura pra que?

A paixão de ler
O discurso dominante reverencia o livro, como algo sagrado que transporta luz e saber. Por isso, quem defende a não-leitura é considerado herege ou, no mínimo, bêbado. A leitura é endeusada como o único caminho que conduz ao conhecimento. Quanto mais leitura, mais humanos somos. A ausência de leitura nos brutaliza. Mentira! Puro blá-blá-blá. A História mostra que essa moralização da leitura é falsa. Por inacreditável que pareça, muitos professores, editores e pais de família que proclamam as vantagens da leitura, raramente abrem um livro. Esse discurso é tão escandalosamente hipócrita, que dá vontade de esculhambá-lo, chutando o pau da barraca.
Qual é à crítica que faço ao ato de ler? É que como prática social, a leitura deixou de ser algo livre e prazeroso, para se tornar uma obrigação, que confere status. Virou uma atividade burocrática, cobrada pelo professor na escola, que em vez de estimular a fome, empurra goela abaixo do aluno comida de qualidade duvidosa. Assim, um escritor tão vital para nós como Machado de Assis acaba sendo odiado. A escola alfabetiza, mas raramente desperta o sabor da leitura. Se para aprender a falar os bebês tivessem que ir pra escola – meu Deus do céu! – mais da metade da população seria muda ou gaga.
Vivemos num país de forte tradição oral, que não tem o hábito coletivo da leitura. Aí, de vez em quando, Secretarias de Cultura e outros órgãos não-governamentais tentam compensar as falhas da escola, desenvolvendo, às vezes com boa intenção, campanhas inúteis e dispendiosas para promover a leitura, o que equivale a criar uma repartição pública ou uma empresa destinada a promover, por exemplo, o namoro e o beijo. O namoro precisa de promoção? Não. A gente namora porque é bom. E ponto.
Ler é que nem namorar, só tem sentido se fundamentado na liberdade, na indisciplina, na anarquia, na paixão. Querer domesticar essa paixão significa sua morte. O jornal O Globo tenta incentivar a leitura, através do projeto “Quem lê jornal sabe mais”. Sabe mesmo? Sabe o quê? Essas campanhas servem para estimular o preconceito in-su-por-tá-vel e quase racista desenvolvido por aqueles que sabem ler contra os que vivem fora do mundo do livro e da leitura, tratados como burros e inferiores. Desenvolve ainda um sentimento de culpa nas pessoas por não terem lido determinados livros.
O babaca alfabetizado
Afinal, quem lê sabe mais do que quem não lê? A leitura melhora a gente? Conversa fiada! Ler não faz ninguém melhor. A leitura em si não aperfeiçoa as pessoas, sobretudo as que se acham superiores só porque leram alguns livros. Se fosse verdade, não haveria tanta gente babaca, arrogante, pretensiosa e moralmente podre. George Bush, deputados, juízes, desembargadores, empresários – como o desalgemado Daniel Dantas – fazem parte do mundo da leitura e nem por isso merecem nossa admiração.
A leitura não cura nenhuma doença e pode até agravá-la. Quem é babaca, depois de ler fica ainda mais babaca. O mesmo acontece com os ridículos, os vaidosos, os frívolos, os pedantes, os corruptos, os bestinhas e os bostinhas. Nós somos aquilo que somos, independentemente da leitura. Ler não serve pra nada, é um vício, uma perdição, uma felicidade. O único motivo pelo qual alguém pode se interessar por um livro é a dimensão mágica de seu conteúdo, a perplexidade, o assombro, a fantasia e a interrogação diante dos enigmas do cotidiano da vida que a leitura pode suscitar em nós.
Existem leitores ávidos, cujas virtudes humanísticas são nulas. São ratos de biblioteca, não lêem para viver, vivem para ler. Não namoram, não furunfam, não jogam nem dominó nem conversa fora com amigos. Perderam o sentido da vida. Levam vidinha superficial, cheia de preconceitos, indignidade e irracionalidade. São injustos, egoístas, soberbos e babacóides. Outros, só porque leram cinco, dez ou cem livros, assumem secretarias de cultura e se acham “os in-te-lec-tuais”. Humilham quem não leu os cem livros que eles juram conhecer.
Por outro lado, todos nós conhecemos não-leitores, dignos e justos, que possuem qualidades morais, inteligência e sensibilidade. Sou amigo de um pajé guarani, da aldeia de Biguaçu (SC), que não quis ser alfabetizado, mas é um sábio, conhece tudo do mundo, da natureza e da espécie humana; quando fala, ilumina quem o escuta, como um poderoso farol. Não leu nenhum dos 4 milhões de livros da Biblioteca Nacional, mas é um poço de integridade, de sapiência e de reserva moral. Aliás, nem o maior devorador de livros consegue em toda sua vida ler 0,1% dos livros já editados. É por isso que a chave da leitura está na não-leitura.
A não-leitura
O filósofo alemão Schopenhauer escreveu no século XIX que livro ruim é veneno intelectual, que estraga o espírito. Livros ruins, escritos apenas com o objetivo de gerar dinheiro, além de inúteis, são prejudiciais, porque para ler um livro bom, a condição é não ler o ruim, já que a vida é curta, e o tempo e a energia são escassos. Quem vive para ler, perde a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. “Leram até ficar estúpidos” – diz o filósofo, para quem a leitura, sem a não-leitura, paralisa o espírito, da mesma forma que o excesso de alimento ou o alimento inadequado prejudica o corpo. O importante não é comer, mas digerir, não é ler, mas ruminar.
Não abrir livros é sabedoria. A escola, porém, nos ensina a ler, mas não nos ensina a não-ler. No entanto, o segredo da leitura reside ai: na não-leitura, que não é uma atitude passiva, mas ativa. Não é ausência de leitura, mas uma atividade organizadora e seletiva da leitura, para não se deixar afogar ou deformar pelos livros.
Há alguns anos dei um curso para professores indígenas, no coração da floresta. Era final de outubro. Quando cheguei, a maloca estava toda embandeirada para comemorar o dia do professor. Num lugar onde era difícil encontrar papel, as bandeirolas haviam sido confeccionadas com páginas de livros enviados por órgãos governamentais. Eram todos absolutamente inúteis. Pensei, então, que esse havia sido o melhor destino dado àquele veneno letal.
O historiador carioca Marcelo Lemos, meu amigo, cujo sobrenome é uma (in) citação à leitura coletiva, me enviou os dez mandamentos redigidos por Daniel Pennac, contendo os direitos do leitor: 1. O direito de não ler; 2 – O direito de pular páginas; 3 – O direito de não terminar o livro; 4 – o direito de reler; 5 – o direito de ler qualquer coisa, inclusive o que é considerado ruim; 6 – o direito ao bovarismo, doença textualmente transmissível; 7 – O direito de ler em qualquer lugar, inclusive na privada; 8 – O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9 – O direito de ler em voz alta ou em voz baixa; 10 – O direito de calar sobre aquilo que lemos, porque nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver e ninguém pode invadir nossa intimidade.
Se você dedicou preciosos minutos à leitura dessa coluna, percebeu que não estou bêbado, mas caio numa contradição. As idéias aqui expostas não existiriam sem a leitura de quatro livros abaixo mencionados. Não menciono, porém, a longa lista dos livros que deixei de ler. Só dois deles: “Presidentes da Academia Amazonense de Letras – 1918 a 2006” (Valer – Manaus, 2006) e “Titulares da Academia. Perfis Acadêmicos” (Manaus – 1997) ambos do mesmo autor, Robério dos Santos Pereira Braga. Como os novos leitores formados pela Flifloresta vão encarar esse tipo de livro?
P.S. – Ah, antes que me esqueça, a Luiza, excelente poeta, além de leitora crítica, depois entendeu que eu, naquele dia, havia bebido apenas os autores abaixo relacionados.
i) Arthur Schpenhauer (1851): Sobre livros e leitura.Tradução de Philippe Humblé e Walter Costa. Florianópolis. Paraula. 1993; ii) Pierre Bayard: Comment parler des livres que l´on n´a pas lus? Paris. Minuit. 2007; iii) Juan Domingo Arguelles: Que leen los que no leen? México. Paidos. 2003; iv) Michèle Petit: Lecturas: del espacio íntimo al espacio público. Mexico. Fondo de Cultura. 2001.
Texto de:

* JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE é Doutor doutorado em Historia na École Des Hautes Études en Sciences Sociales, EHESS, França; Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio). Lattes:  http://lattes.cnpq.br/7211811266353518 Texto originalmente publicado em http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=57

domingo, 27 de novembro de 2011

E o cinema vai bem Obrigada! Será?

Estava eu lendo algumas coisas sobre mídias e multimídias e parei num texto que levou a um debate c tem uma conclusão interessante, eis ela aqui:
o texto a seguir é do Px Silveira.



O cinema no Brasil vai bem? A julgar pelo quantitativo de filmes e festivais, a resposta é sim. A julgar pelo que resulta de tudo isso, a resposta é um vago talvez, que dá margens a uma outra pergunta: mas para que serve mesmo o cinema?
Enquanto todo mundo quer produzir, tirar o atraso e fazer conteúdo, dar corpo e horas tela ao cinema brasileiro, a reflexão do que é feito está sendo relegada a um segundo plano. Entende-se. É tanta a sede e tamanha a satisfação de finalmente podermos produzir em quantidade, que só temos olhos e desejos compatíveis com essa realidade.
Mas, convenhamos, salvo raras exceções, temos sido produtores e consumidores de um acervo nacional de audiovisual padecendo de acefalia.
São poucos os filmes que vemos –ou nenhum, que buscam assimilar e digerir este conteúdo que é produzido aos montes, e anunciar sua importância dentro de um contexto mais amplo, pautado pelo arco da história do audivisual no Brasil e no Mundo, que é uma história de invasões, dominações e algumas saudáveis resistências.
É exatamente isto que Ctrl-V, a mais nova produção de Leo Brant, faz: buscar a cabeça da mula. Em certo sentido, o de uma arqueologia da produção, Leo faz o cinema do cinema. Ele mexe com os ossos do que tem sido produzido, isto é, com a estrutura e multi-utilidade da cena fazedora de audiovisual, até chegar a seu sentido mais primevo.
Não seria exagero afirmar que Ctrl-V tem os genes de Glauber Rocha e o DNA de Cataguases de Humberto Mauro, quando nosso cinema tinha o céu como Limite (palavra que aqui pode ser entendida duplamente, funcionando como componente do universo narrativo e como título da produção do cabalístico Mário Peixoto).
Não que Ctrl-V faça alguma referência explícita a estes mestres e à esta linhagem perdida do cinema brasileiro. Ctrl-V é mais sutil. Apenas fornece elementos críticos, sugere pensar o audiovisual com todo o seu potencial. Ctrl-V  traz ferramentas para não entregarmos a rapadura e atuar de coadjuvantes no cenário contemporâneo, que obrigatoriamente é um cenário global.
Em Ctrl-V Leo Brant deixa claro à exautão que nada mais se faz sem provocar efeitos de player global, seja essa ação causa, como o é para os produtores de ponta, ou consequência, como o é para os mais passivos.
Seja para o bem ou para o mal, não dá mais para passar despercebido ou para ficar alheio ao jogo travestido de espetáculo. Somos todos protagonistas. Alguns, dos atos. Outros, dos aplausos.
Enfim, um filme obrigatório para quem faz filme ou melhor dizendo, para quem faz conteúdo de audiovisual, que filme mesmo, pode ser outra coisa. Ctrl-V  tem o mérito de apontar para uma cabeça –ou o lugar onde ela deveria estar, completando o corpo que, no caso do Brasil, se expande rapidamente por meio de tantos editais de produção e festivais ôcos de cinema.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ofício da ANPUH ao Poder Judiciário do RS

Porto Alegre, 11 de novembro de 2011.

Exmo. Sr. Desembargador Leo Lima

Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul

A Associação Nacional de História (ANPUH), sua seção Rio Grande do Sul (ANPUH-RS) e os representantes dos Cursos Superiores de História do estado consideram altamente meritória a iniciativa do Poder Judiciário, que buscou consultar os profissionais da área da História para discutir esse importante processo de organização e preservação da massa documental acumulada, e que consideramos de imenso e insubstituível valor para o conhecimento de nossa sociedade, através dos registros armazenados no Arquivo Judicial desse Tribunal. Compreendemos, também, a necessidade de uma administração adequada desses conjuntos documentais, na medida em que seu volume excessivo consome recursos que sempre são reduzidos, face aos investimentos que se precisa fazer para responder à demanda da sociedade, que vê na Justiça o espaço correto para a resolução de conflitos.
No entanto, entendemos que a forma com que se está desenvolvendo essa proposta não é adequada, pois impede uma consideração apropriada do significado social desses documentos. Eles são importantes para que se possa interpretar os processos históricos vivenciados no nosso Estado, o que se dá através do contato com tais informações ali coligidas. Além disso, é fundamental destacar que o Judiciário não é o proprietário dessa documentação, sendo somente seu guardião, pois estes documentos, na verdade, pertencem a todo a sociedade. Assim, querer dispor desses processos através de medidas extremas atenta contra essa perspectiva, podendo causar prejuízos irreparáveis a todos os que se interessam pela História e pela cidadania.
Entendemos também que não podemos ser convocados a realizar uma atividade limitada, desenvolvida somente no final dos procedimentos administrativos, numa proposta que pretende exigir do profissional da História a escolha e preservação dos documentos ditos “interessantes”, pois isso, além de contrariar tudo o que se tem preconizado na historiografia das últimas décadas, ainda atenta contra o bom senso, na medida em que impede quaisquer critérios objetivos para sua execução, pois o que pode ser um critério “interessante” para um profissional, pode não ser para outro, e vice-versa. Por fim, também não guarda nenhuma lógica com procedimentos operacionais adequados, já que significa nova revisão do conjunto documental, que foi anteriormente avaliado para se identificar outros requisitos.
Tendo em vista o exposto até o momento, os historiadores aqui representados optam por não participar da comissão interdisciplinar proposta sem as garantias de atendimento as nossas reivindicações e de que essas poderão influenciar concretamente no processo de avaliação, preservação e descarte dos documentos custodiados pelo Tribunal.
Outrossim, nos propomos a participar, neste momento, da avaliação da tabela de temporalidade sugerida pelo CNJ, juntamente com arquivistas e outros profissionais específicos, adquirindo subsídios sobre as tipologias documentais geradas pelo Poder Judiciário em seu funcionamento, para, com uma noção mais clara do acervo custodiado pelo TJ/RS, podermos propor efetivas regras de arranjo, descarte ou guarda permanente.
Aproveitamos para sugerir ao Tribunal que, o mais breve possível, promova concurso público para a contratação de profissionais da área de História, capazes de participar da gestão documental da instituição, bem como a disponibilização adequada dos documentos aos pesquisadores e à sociedade em geral.
Como contribuição, apresentamos as seguintes proposições a serem desenvolvidas pela Equipe Técnica do Tribunal de Justiça, a fim de obter nosso apoio a essa atividade:
- Efetuar ampla reorganização da documentação, visando sua correta identificação e classificação, ANTES de se proceder a qualquer descarte;
- Propor a revisão, por parte de profissionais da área da História, da Tabela de Temporalidade sugerida pelo CNJ, na medida em que essa é apenas uma recomendação, que pode ou não ser aceita pelos demais Tribunais. Cabe lembrar que um instrumento desse porte, elaborado em nível nacional, é incapaz de atender aos diversos fenômenos regionais, os quais encontram-se registrados na documentação produzida pelo Poder Judiciário gaúcho;
- Consultar, por meio de manifestação oficial, a Comissão Setorial do Sistema de Arquivos do Estado do Rio Grande do Sul (SIARQ/RS), que tem como determinação legal o dever de se pronunciar a respeito dos procedimentos arquivísticos a serem adotados em todo o Estado do Rio Grande do Sul;
- Apresentar, por meio de Projeto adequado, o Programa de Trabalho de Organização de Acervos Arquivísticos do Poder Judiciário, prevendo as atividades, os procedimentos e, principalmente, os recursos a serem destinados a esse Programa, de modo a permitir um planejamento adequado para a destinação definitiva dessa documentação.

As proposições acima tem como objetivo permitir ao Judiciário uma agenda positiva de tratamento dessa documentação, considerando-se que há perspectivas de redução significativa dos recursos dispendidos pelo Poder Judiciário, em função de se estar adotando o Processo Eletrônico. Essa redução de custos, inclusive, poderia ser reinvestida nessa atividade, produzindo um resultado efetivo e qualificado para a questão, fomentando procedimentos que ofereçam à nossa sociedade um ganho em termos de pesquisa e produção de conhecimento.
Colocamo-nos à disposição para continuarmos debatendo esse tema, de modo a encontrar uma solução equilibrada, justa e adequada para todos, que permita ao Judiciário resolver suas dificuldades nesse campo de ação, mas que impeça prejuízos danosos à memória da sociedade gaúcha, o que com toda a certeza não deve ser o objetivo de Vossa Excelência. Temos a clareza de que tais esforços serão recompensados no futuro, no momento em que nossas ações no presente se tornarem também objeto de consideração por parte de nossos descendentes, sejam eles historiadores, operadores do direito ou cidadãos em geral.

Atenciosamente,
Benito Schmidt Presidente da ANPUH (Gestão 2011-13)

Zita Possamai
Presidenta da ANPUH-RS (Gestão 2010-12)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Posição da ANPUH-RS sobre Arquivo do Judiciário do RS


O CASO

TJRS discute com especialistas o descarte de processos do Arquivo Judicial do Estado

Sob a coordenação da 3ª Vice-Presidente do TJRS, Desembargadora Liselena Schifino Robles Ribeiro, foi realizada uma audiência com historiadores, arquivistas e representantes de entidades e universidades gaúchas.  Na pauta, a discussão dos novos projetos do Judiciário gaúcho para o descarte de processos do Arquivo Judicial do Estado.
As propostas foram elaboradas pelos Juízes-Assessores da Assessoria Especial das Vice-Presidências do TJRS, Jerson Moacir Gubert, Luís Antonio Behrensdorf Gomes da Silva e Maria Thereza Barbieri.
O objetivo do TJRS é propor formas de avaliação e classificação dos processos, identificando quais têm importância histórica e devem ser preservados e quais devem ser descartados.
 Atualmente, o TJRS conta com um acervo de 11 milhões de processos, arquivados em cinco prédios de Porto Alegre. Desse total, apenas dois são próprios do judiciário, o restante é locado.
Para diminuir os custos com essas locações, assim como liberar espaço para que novos processos possam ser arquivados, é que os juízes-assessores estão trabalhando em propostas que possam preservar a história e, ao mesmo, tempo, diminuir os custos do TJRS com a armazenagem de papel.
Para os historiadores e arquivistas que participaram da reunião, a iniciativa do TJRS é louvável, pois abre o debate sobre o acervo dos processos.
As universidades UFRGS, PUCRS, UNISINOS e FAPA manifestaram desejo de fazer parte da comissão que vai analisar os processos para o descarte, assim como as entidades ligadas aos arquivistas no Estado.
Novos projetos para o Arquivo Judicial do Estado
A Assessoria Especial das Vice-Presidências do TJRS, ao lado da Presidência, da Comissão Permanente de Gestão e Avaliação de Documentos (CPGAD) e da Direção-Geral do Tribunal, está trabalhando na implantação de uma série de projetos, entre eles alguns inéditos no país, para modernizar os serviços no Arquivo Judicial do Estado.
Segundo os Juízes que integram a Assessoria Especial das Vice-Presidências, a atual situação do arquivo dos processos no Estado chegou ao limite, requerendo soluções inteligentes e práticas.
O Arquivo conta hoje com um acervo de cerca de 11 milhões de feitos que aguardam cuidadosa análise para serem eliminados. Frente a esta demanda, e sem pessoal em número suficiente, algumas medidas inovadoras estão sendo adotadas. A principal delas é ligada à contratação de empresa para classificar 10 milhões de processos, sem ser preciso utilizar os escassos recursos humanos disponíveis.
Com apoio do Conselho de Informática e do Departamento de Informática, uma ferramenta está sendo desenvolvida de modo a permitir que o processo, assim que avaliado, seja incluído em relações que atestem suas situações, seja para descarte, seja para guarda permanente, seja ainda para aguardar prazo, conforme tabela de temporalidade. Isso permite a editalização direta, a ser feita pelo Departamento de Artes Gráficas (DAG) do TJRS, publicizando os processos que serão eliminados.
Critérios para descarte de processos
O descarte de processos atende a três critérios básicos: tabela de temporalidade, corte cronológico e cálculo amostral.
A tabela de temporalidade é o instrumento pelo qual se determina o prazo de permanência de um documento em um arquivo e sua destinação após este prazo.
O cálculo amostral é uma ferramenta de estatística, que utiliza uma fórmula própria, determinando, por amostragem, quais documentos devem ser guardados.
O corte cronológico é o marco definido pela entidade a partir de quando os feitos podem ser classificados e avaliados. Todos os demais são de guarda permanente. No RS, o ano definido foi o de 1950.
Para o cálculo amostral e a tabela de temporalidade, foram utilizados os critérios desenvolvidos em estudos promovidos pelo CNJ, com apoio do CONARQ e do PRONAME.
Para a utilização do sistema de classificação dos processos, é necessário um número expressivo de servidores. Hoje, o acervo possui cerca de 11 milhões de processos no aguardo dessa análise.
Com a falta de material humano, foram realizadas negociações com a CORAG, Companhia Rio-Grandense de Artes Gráficas, para a contratação de cerca de 200 funcionários, que atuarão na abertura das caixas e classificação de processos, digitando dados no sistema desenvolvido pela Informática do TJ.
O descarte só se dará após classificação de feitos e análise criteriosa pelo Núcleo de Preservação e Restauro, com auxílio, que se está a buscar, de profissionais, técnicos e estagiários das áreas de Arquivo e História, mediante convênios a serem firmados com Universidades.
Criação do Serviço de Formação do Processo Digital
Para melhor administrar o trabalho de gestão de documentos, a Assessoria Especial das Vice-Presidências do TJRS, ao lado da Comissão Permanente de Gestão e Avaliação de Documentos-CPGAD, elaborou projeto de criação do Serviço de Formação do Processo Digital, não como departamento, mas como serviço auxiliar, vinculado à Direção Administrativa. Esse serviço deve atuar ao lado do Serviço de Arquivo Judicial e do Serviço de Arquivo Administrativo, compondo a área de gestão de documentos da Corte Estadual.
O Serviço, que se localizava junto ao prédio do Arquivo Judicial, passou recentemente a funcionar no 4º andar do novo Foro Regional do 4º Distrito.
Segundo o Juiz Jerson Moacir Gubert, da Assessoria Especial das Vice-Presidências do TJRS, há necessidade de mais servidores para trabalharem nos projetos em curso e a serem implantados, tanto no processo digital como junto aos arquivos. Para isso, a Comissão de Organização Judiciária no Estado-COJE analisa a criação de gratificações para servidores, como estímulo para a formação das equipes necessárias. O magistrado explica ainda que as gratificações se restringem aos serviços dos arquivos, por sua peculiaridade. Para completar a equipe dos serviços, também está sendo proposta a criação de mais dois cargos de arquivistas no Judiciário gaúcho. Hoje já existem dois servidores com esta especialidade no TJRS.
Próximas reuniões
Uma nova reunião será marcada para ser realizada no Arquivo Judicial do Estado. O objetivo é levar os especialistas para conhecerem a realidade do armazenamento dos processos na Justiça gaúcha.
Presenças
Além das Universidades, participaram da reunião o Presidente do Conselho de Comunicação Social, Desembargador Túlio Martins, a Juíza-Federal Ingrid Schroder Sliwka, o Promotor de Justiça, Alceu Schoeller de Moraes, o Diretor-Geral do TJRS, Omar Jacques Amorim, a coordenadora do Arquivo Judicial do TJRS, Tassiara Jaqueline Fanck Kich, o representante da Associação Nacional de Profissionais de História, Benito Bisso Schmidt, a representante da Associação Nacional de Profissionais de História Seção RS, Zita Possamai, a representante da Associação dos Arquivistas do RS Karine Dressler e Jair Krischke do Movimento de Justiça e Direitos Humanos.




Informe aos associados

No último sábado,  5 de novembro, a diretoria da ANPUHRS esteve reunida com o Presidente da ANPUH Nacional e representantes dos Cursos de História  de diversas IES do estado, a fim de discutir sobre as movimentações no Tribunal de Justiça no sentido da destinação de cerca de 11 milhões de processos judiciais, oriundos daquele órgão. Por unanimidade, foi considerada a situação preocupante, principalmente, por não haver historiador no órgão com poder decisório sobre o assunto. Decidiu-se que os encaminhamentos junto ao Tribunal de Justiça serão tomados em conjunto entre a ANPUH e as IES no sentido de assegurar o adequado tratamento e avaliação da documentação em questão. A ANPUHRS não aceitará descarte de documentação, sem controles efetivos por parte dos historiadores. Consideramos que a documentação em questão é um patrimônio de toda a sociedade, sendo o TJ não o proprietário, mas o guardião da mesma. Nesse sentido, cabe à sociedade discutir e decidir sobre a destinação desse acervo.  
Fonte: Informe Pessoal de associada.