sexta-feira, 22 de julho de 2016

Programa Conhecendo Museus- "Erico Veríssimo"

A história do Brasil com certeza passa pelo Rio Grande do Sul. São batalhas — a exemplo da Guerra dos Farrapos e Guerra do Paraguai — o amor dos gaúchos pela sua cultura regional, as belas paisagens, os produtos exportados para outros estados brasileiros e até outros países, entre tantos outros exemplos.
Neste cenário, o Conhecendo Museus desembarcou na cidade de Cruz Alta, localizada a 350 quilômetros da capital Porto Alegre, para mostrar a vocês um espaço riquíssimo culturalmente e que apresenta aos seus visitantes boa parte desta história através do olhar e das obras do escritor Erico Veríssimo.
Este importante escritor brasileiro do século XX deixou um legado para as futuras gerações. O Memorial Erico Verissimo é composto por originais datilografados com inúmeras observações manuscritas, cadernos de anotações, desenhos, correspondências e fotos, complementados por rica fortuna crítica, ocupando dois andares do Centro Cultural CCEV.
Os ambientes levam o visitante a conhecer vida e obra de Erico através de vitrines, painéis, estruturas interativas e outros recursos visuais, sonoros e táteis. Uma experiência singular para quem deseja conhecer um pouco mais sobre o autor de O Tempo e o Vento, de Incidente em Antares e de outros clássicos que posicionam este escritor entre os maiores nomes da nossa literatura.
A casa que abriga o museu é muito antiga, foi construída em 1883 e tem uma estrutura muito original. Erico nasceu nessa residência em 17 de dezembro de 1905. Na Sala da Terra, os visitantes podem conhecer o “Álbum de Família”, onde é apresentado todos os membros da família Veríssimo. Pela sua importância histórica e cultural, a casa foi tombada pelo IPHAE em 1984.
A carreira literária de Erico se despontou quando ele mudou para Porto Alegre, em 1930. Lá, ele teve contato com diversos outros escritores já renomados, a exemplo de Mário Quintana. O primeiro livro de sua autoria, na categoria “contos”, é lançado em 1932 com o título Fantoche. E o primeiro romance surge em 1933 com o nome Clarissa, nome que deu a sua filha.
Erico Veríssimo é um dos autores brasileiros mais conhecidos no exterior, com obras editadas em mais de 15 idiomas. Ao longo de sua carreira escreveu 36 obras, entre romances, novelas, contos, memórias, narrativas infanto-juvenis e de viagens.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A àgua na História do Homem


Os egípcios dominavam técnicas sofisticadas de irrigação do solo na agricultura e métodos de armazenamento de líquido, pois dependiam das enchentes do Rio Nilo.


Agricultura na região do Nilo

As construções destinadas ao transporte de água, chamadas de aquedutos, eram grandiosas, principalmente entre os romanos. Essas obras abasteciam dezenas de termas ( ou banhos públicos ), muito apreciadas pela população da época. Além disso , os aquedutos supriam as cidades com a água dos lagos em fontes artificiais. Os romanos também se destacaram na construção de redes de esgotos e de canalizações para escoamento das águas de chuvas na cidade.
Por volta do ano 300 d.C., existiam em Roma mais de 300 banhos públicos. Consumiam-se cerca de 3 milhões de litros de água por dia. As termas eram construções sofisticadas, com piscinas de água quente, morna ou fira, ao lado de salas para a prática de esportes e massagem.
Para outras civilizaçoes, as residências construídas na Antiguidade, inclusive as pertencentes á nobreza, não possuíam sanitários. Nas cidades e no campo era comum as pessoas evacuarem diretamente no solo. A camada mais rica da população usava recipientes para fazer suas necessidades e em seguida descarregava o conteúdo em local próximo ás moradias. Quando chovia, as fezes eram levadas pelas enxurradas até os rios, contaminando a águas e disseminando doenças.
Naquela época, alguns povos já aravam o solo para o plantio da lavoura, sem adotar medidas que evitassem o transporte de terra pelas enxurradas, tornando as águas mais sujas de barro.
Para tornar a água limpa antes de ser utilizada nas atividade domésticas, certos povos, principalmente os egípcios e japoneses, filtravam o líquido em vasos de porcelana.
Da Idade Média à sociedade industrial
Durante a Idade Média, os hábitos dos camponeses e senhores eram semelhantes aqueles praticados pelas civilizações passadas. A situação se agravou com o início do desenvolvimento industrial, em meados do século XVIII, quando as fábricas de tecidos levaram os artesãos em massa para os grandes centros urbanos.

As áreas industriais cresciam rapidamente e os serviços de saneamento básico, como suprimento de água e limpeza de ruas, não acompanhavam essa expansão. Em consequência, o período foi marcado pela volta de graves epidemias, sobretudo do cólera e da febre tifóide, transmitidos pela água contaminada, que fizeram milhares de vítimas.
Inicialmente a Inglaterra e em seguida outros países europeus realizaram uma grande reforma sanitária. Foram instaladas as descargas líquidas, semelhantes as utilizadas atualmente, transportando os detritos para as canalizações de águas pluviais.
O Brasil foi um dos primeiros paises do mundo a implantar redes de coleta para escoamento das águas das chuvas. Porém esse sistema foi instalado somente no Rio de Janeiro e atendia a área da cidade onde estava instalada a aristocracia.



Atualmente, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia permitiu que fontes contaminadas se tornassem potáveis após tratamento. Hoje existem métodos diversificados para que o esgoto e o lixo não afetem a saúde e o meio ambiente. Porém, em toda a história da humanidade, a deterioração dos recursos naturais nunca atingiu tamanha proporção como nos dias atuais.
Uso da água nos séculos 20 e 21

No século 20, a população mundial triplicou, o que significa mais fábricas, mais desperdício, mais irrigação nas lavouras, etc. O consumo de água aumentou cerca de seis vezes e mais de um bilhão de pessoas atualmente vivem sem acesso a fontes de água de qualidade, de acordo com dados da ONU. Segundo a mesma fonte, cerca de dois bilhões e meio de pessoas vivem sem saneamento básico.



No Brasil, o uso dos recursos hídricos começa a ficar p r e o c u p a n t e : falta água na maioria das bacias do Nordeste, na Grande São Paulo, certas regiões de Minas Gerais, Bahia e em algumas áreas do Rio Grande do Sul. Possuímos 16% de água doce do planeta, d i s t r i b u ida de modo irregular. Cerca de 68% de nossos recursos hídricos estão no Norte, onde tem menos gente; apenas 3% estão no Nordeste e 6% no Sudeste, onde a população é maior.


Para evitar a crise da água, seriam necessários: evitar desperdício, interromper processos poluidores e criar novas maneiras de captação, controle e distribuição da água. Em alguns países, como EUA e Japão, há cidades onde a água do esgoto é tratada e vai para as torneiras.


Neste nosso projeto sobre a água, faremos a princípio, uma análise da água com suas propriedades, usos e ocorrência na Natureza, seguida da avaliação da poluição, da escassez Toda a água de abastecimento de Ribeirão Preto vem de um imenso reservatório de águas subterrâneas chamado Aqüífero Guarani, de onde é extraída pelo Daerp através de poços tubulares profundos.


O Aqüífero Guarani se estende pelos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além da Argentina, Paraguai e Uruguai. Ocupa uma área de 1,2 milhões de km2, dos quais 70% encontram-se no Brasil. É um dos maiores reservatórios subterrâneos de água do mundo. Foi batizado de Guarani em homenagem à nação indígena do mesmo nome que habitava a região.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Conheça um pouco sobre o Prédio onde nasceu o escritor Erico Veríssimo.

Paixão pela memória. A casa onde nasceu e cresceu Erico Veríssimo.

O Museu

 

O sobrado nº 17, que abriga o Museu Casa Erico Veríssimo, foi construído no final do século XVIII (1883) pelo construtor Dante de Vitte.

Em 1893, a então casa em estilo colonial foi vendida ao estancieiro e médico Homeopata Franklin Veríssimo que presenteou o filho Sebastião Veríssimo por ocasião de seu casamento com Abegahy Lopes Veríssimo, bem como com uma Pharmácia ao lado da residência para o exercício da profissão do filho, recem formado na 1ª turma de Pharmácia de Porto Alegre.

Nas proximidades da residência o comércio era fluente para a época contando com uma fabrica de gêneros alimentícios (massas), outra de Fósforos utilitários domésticos e agrícolas,  loja de tecidos e armarinhos, bancos, clubes o centro governamental da cidade(Prefeitura), Igreja a Estação Ferroviária dentro outros pontos de Comércio.

No ano de 1968, o imóvel foi  desapropriado pela Prefeitura Municipal da Cidade de Cruz Alta com a finalidade de instalar o Museu Erico Veríssimo, sendo inaugurado em 19 de janeiro de 1969. Em 1986, passou a funcionar também, a Fundação Erico Verissimo (inativa).

Em 1984 foi tombado pelo IPHAE ( Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul). O Museu Erico Verissimo é administrado pela Prefeitura Municipal de Cruz Alta, sua mantenedora.

 

 O Sobrado em si

 

 

A casa está implantada em esquina, com acesso principal voltado para a Rua General Câmara, fachadas dotadas de ornamentos em arabescos com adornos em estuque e balcões saltados no mirante. Completam a composição da fachada frontal e lateral leste, frisos, balaústras e cimalha em argamassa formando eira e beira.

Destacam-se elementos como o delicado trabalho feito no portão de ferro, todo forjado com motivos florais circulares, possivelmente do início do século XIX, apogeu econômico da cidade. Também há de se destacar os ladrilhos hidráulicos do pátio lateral oeste, ainda originais da época de construção estes caracterizam-se por serem peças de desenho executado pela técnica Majólica (pintados a mão livre), com motivos fitomórficos ou florais.

 

História e Museus

 

Os museus históricos, segundo Ulpiano Menezes, foram criados com um intuito claro de “acatar, celebrar e fixar modelos de valores e comportamentos”, por meio da promoção de determinados personagens que encarnam esses elementos. Essa função atribuída aos museus históricos se confunde com o papel que se atribuía a História enquanto ciência: legitimadora de construções sociais, políticas e econômicas, que apresentava uma verdade pronta e acabada sobre o passado. Era um período em que os historiadores se ocupavam dos grandes vultos, dos fatos extraordinários, dos acontecimentos ligados as dinastias, aos governantes, aos grandes nomes.

 Só mereciam estudos os aspectos econômicos, políticos e militares. O cotidiano, a vida e os esforços das pessoas comuns, as mentalidades e o imaginário, eram aspectos desprezados, vistos como desimportantes, indignos de estudos e análises. Mulheres, escravos, trabalhadores, crianças, não eram vistos como atores históricos de fato.

Apesar de ser comum detectar permanências desse paradigma, a história mudou muito nas últimas décadas. Diversas gerações de estudiosos tomaram consciência da importância de tais estudos, e aqueles aspectos antes ostracizados são hoje centrais nos esforços dos historiadores.

Olhado por este prisma, nossa instituição se manifesta como um importante documento histórico, cristalizando materialmente o processo de transição entre a Monarquia e a República, momento em que a antiga aristocracia rural perde espaço e um novo segmento, ligado as atividades urbanas, se consolida.

Essa riqueza histórica impressa no Museu Casa Erico Veríssimo seria inócuo, no entanto, se representasse a finalidade última dessa instituição. Mais do que ser meramente a guardiã desse legado, a Casa procura tornar-se intermediária dele com a sociedade circundante, concorrendo para a formação de uma consciência crítica e para a discussão, compreensão e ação direta na realidade local.

Projetos como o de apropriação da memória local, fomento a projetos de pesquisa, ciclos de palestra e trabalhos voltados a difusão da memória social são o caminho, pois como disse Antônio Lopes, historiador maranhense: “ontem uma grandeza, hoje uma ruína: amanhã o que será?”

Nosso trabalho visa, acima de tudo, proporcionar uma resposta positiva a esse enigma.

 

 

 

 

Esp. Juliana Abreu
Historiadora, Gestora em Arquivos
04/03/2015

sábado, 14 de março de 2015

10 Mitos sobre a Ditadura

DITADURA, Porque Não desejar que ela retorne.

Em 1964, um golpe de estado que derrubou o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura no Brasil. O regime autoritário militar durou até 1985. Censura, exílio, repressão policial, tortura, mortes e “desaparecimentos” eram expedientes comuns nesses “anos de chumbo”. Porém, apesar de toda documentação e testemunhos que provam os crimes cometidos durante o Estado de exceção, tem gente que acha que naquela época “o Brasil era melhor”. Mas pesquisas da época – algumas divulgados só agora, graças à Comissão Nacional da Verdade – revelam que o período não trouxe tantas vantagens para o país.

Nas últimas semanas, recebemos muitos comentários saudosistas em relação à ditadura na página da SUPER no Facebook. Em uma época em que não é incomum ver gente clamando pela volta do regime e a por uma nova intervenção militar no país, decidimos falar dos mitos sobre a ditadura em que muita gente acredita.

1. “A ditadura no Brasil foi branda”

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Foto: Auremar de Castro/DEDOC Abril
Pois bem, vamos lá. Há quem diga que a ditadura brasileira teria sido “mais branda” e “menos violenta” que outros regimes latino-americanos. Países como Argentina e Chile, por exemplo, teriam sofrido muito mais em “mãos militares”. De fato, a ditadura nesses países também foi sanguinária. Mas repare bem: também foi. Afinal, direitos fundamentais do ser humano eram constantemente violados por aqui: torturas e assassinatos de presos políticos – e até mesmo de crianças – eram comuns nos “porões do regime”. Esses crimes contra a humanidade, hoje, já são admitidos até mesmo pelos militares (veja aqui e aqui). Para quem, mesmo assim, acha que foi “suave” a repressão, um estudo do governo federal analisou relatórios e propõe triplicar a lista oficial de mortos e desaparecidos políticos vítimas da ditadura militar. Ou seja: de 357 mortos e desaparecidos com relação direta ou indireta com a repressão da ditadura (segundo a lista da Secretaria de Direitos Humanos), o número pode saltar para 957 mortos.

2. “Tínhamos educação de qualidade”

Naquele época, o “livre-pensar” não era, digamos, uma prioridade para o regime. Havia um intenso controle sobre informações e ideologia – o que engessava o currículo – e as disciplinas de filosofia e sociologia foram substituídas por Educação, Moral e Cívica e por OSPB (Organização Social e Política Brasileira, uma matéria obrigatória em todas as escolas do país, destinada à transmissão da ideologia do regime autoritário). Segundo o estudo “Mapa do Analfabetismo no Brasil”, do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do Ministério da Educação, o Mobral (Movimento Brasileiro para Alfabetização) fracassou. O Mobral era uma resposta do regime militar ao método do educador Paulo Freire – considerado subversivo -, empregado, já naquela época, com sucesso no mundo todo. Mas os problemas não paravam por aí: com o baixo índice de investimento na escola pública, as unidades privadas prosperaram. E faturaram também. Esse “sucateamento” também chegou às universidades: foram afastadas dos centros urbanos – para evitar “baderna” – e sofreram a imposição do criticado sistema de crédito.

3. “A saúde não era o caos de hoje”

Se hoje todo mundo reclama da “qualidade do atendimento” e das “filas intermináveis” nos hospitais e postos de saúde, imagina naquela época. Para começar, o acesso à saúde era restrito: o Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) era responsável pelo atendimento público, mas era exclusivo aos trabalhadores formais. Ou seja, só era atendido quem tinha carteira de trabalho assinada. O resultado era esperado: cresceu a prestação de serviço pago, com hospitais e clínicas privadas. Essas instituições abrangeram, em 1976, a quase 98% das internações. Planos de saúde ainda não existiam e o saneamento básico chegava a poucas localidades, o que aumentava o número de doenças. Além disso, o modelo hospitalar adotado relegava a assistência primária a segundo plano, ou seja, para os militares era melhor remediar que prevenir. O tão criticado SUS (Sistema Único de Saúde) – que hoje atende cerca de 80% da população – só foi criado em 1988, três anos após o fim da ditadura.

4. “Não havia corrupção no Brasil”

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Arquivo Editora Bloch/Veja Rio/DEDOC Abril
Uma características básica da democracia é a participação da sociedade civil organizada no controle dos gastos, denunciando a corrupção. E em um regime de exceção, bem, as coisas não funcionavam exatamente assim. Não havia conselhos fiscalizatórios e, depois da dissolução do Congresso Nacional, as contas públicas não eram sequer analisadas, quanto mais discutidas. Além disso, os militares investiam bilhões e bilhões em obras faraônicas – como Itaipu, Transamazônica e Ferrovia do Aço -, sem nenhum controle de gastos. Esse clima tenso de “gastos estratosféricos” até levou o ministro Armando Falcão, pilar da ditadura, a declarar que “o problema mais grave no Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”.Muito pouco se falava em corrupção. Mas não significa que ela não estava lá. Experimente jogar no Google termos como “Caso Halles”, “Caso BUC” e “Caso UEB/Rio-Sul” e você nunca mais vai usar esse argumento.

5. “Os militares evitaram a ditadura comunista”

É fato: o governo do presidente João Goulart era constitucional. Seguia todo à risca o protocolo. Ele chegou ao poder depois da renúncia de Jânio Quadros, de quem era vice. Em 1955, foi eleito vice-presidente com 500 mil votos a mais que Juscelino Kubitschek. Porém, quando Jango assumiu a Presidência, a imprensa bateu na tecla de que em seu governo havia um “caos administrativo” e que havia a necessidade de reestabelecer a “ordem e o progresso” através de uma intervenção militar. Foi criada, então, a ideia da iminência de um “golpe comunista” e de um alinhamento à URSS, o que virou motivo para a intervenção. Goulart não era o que se poderia chamar de marxista. Antes de ser presidente, ele fora ministro de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek e estava mais próximo do populismo. Em entrevista inédita recentemente divulgada, o presidente deposto afirmou que havia uma confusão entre “justiça social” – o que ele pretendia com as Reformas de Base – e comunismo, ideia que ele não compartilhava: “justiça social não é algo marxista ou comunista”, disse. Há também outro fator: pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do golpe, em 31 de março, mostram que Jango tinha um amplo apoio popular, chegando a 70% de aprovação na cidade de São Paulo. Esta pesquisa, claro, não foi revelada à época, mas foi catalogada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

6. “O Brasil cresceu economicamente”

Um grande legado econômico do regime militar é indiscutível: o aumento da dívida externa, que permaneceu impagável por toda a primeira década de redemocratização. Em 1984, o Brasil devia a governos e bancos estrangeiros o equivalente a 53,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Sim, mais da metade do que arrecadava. Se transpuséssemos essa dívida para os dias de hoje, seria como se o Brasil devesse US$ 1,2 trilhão, ou seja, o quádruplo da atual dívida externa. Além disso, o suposto “milagre econômico brasileiro” – quando o Brasil cresceu acima de 10% ao ano – mostrou que o bolo crescia sim, mas poucos podiam comê-lo. A distribuição de renda se polarizou: os 10% dos mais ricos que tinham 38% da renda em 1960 e chegaram a 51% da renda em 1980. Já os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, decaíram para 12% duas décadas depois. Quer dizer, quem era rico ficou ainda mais rico e o pobre, mais pobre que antes. Outra coisa que piorava ainda mais a situação do população de baixa renda: em pleno milagre, o salário mínimo representava a metade do poder de compra que tinha em 1960.

7. “As igrejas apoiaram”

Sim, as igrejas tiveram um papel destacado no apoio ao golpe. Porém, em todo o Brasil, houve religiosos que criaram grupos de resistência, deixaram de aceitar imposições do governo, denunciaram torturas, foram torturados e mortos e até ajudaram a retirar pessoas perseguidas pela ditadura no país. Inclusive, ainda durante o regime militar, uma das maiores ações em defesa dos direitos humanos – o relatório “Brasil: Nunca Mais” – originou-se de uma ação ecumênica, desenvolvida por dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright. Realizado clandestinamente entre 1979 e 1985, gerou uma importante documentação sobre nossa história, revelando a extensão da repressão política no Brasil.

8. “Durante a ditadura, só morreram vagabundos e terroristas”

Esse é um argumento bem fácil de encontrar em caixas de comentário da internet. Dizem que quem não pegou em armas nunca foi preso, torturado ou morto pelas mãos de militares. Provavelmente, quem acredita nisso não coloca na conta o genocídio de povos indígenas na Amazônia durante a construção da Transamazônica. Segundo a estimativa apresentada na Comissão da Verdade, 8 mil índios morreram entre 1971 e 1985. Isso sem contar as outras vítimas da ditadura que não faziam parte da guerrilha. É o caso de Rubens Paiva. O ex-deputado, cassado depois do golpe, em 1964, foi torturado porque os militares suspeitavam que, através dele, conseguiriam chegar a Carlos Lamarca, um dos líderes da oposição armada. Não deu certo: Rubens Paiva morreu durante a tortura. A verdade sobre a morte do político só veio à tona em 2014. Antes disso, uma outra versão (bem mal contada) dizia que ele tinha “desaparecido”. Para entrar na mira dos militares durante a ditadura, lutar pela democracia – mesmo sem armas na mão – já era motivo o suficiente.

9. “Todos os militares apoiaram o regime”

Ser militar na época não era sinônimo de golpista, claro. Havia uma corrente de militares que apoiava Goulart e via nas reformas de base um importante caminho para o Brasil. Houve focos de resistência em São Paulo, no Rio de Janeiro e também no Rio Grande do Sul, apesar do contragolpe nunca ter acontecido. Durante o regime, muitos militares sofreram e estima-se que cerca 7,5 mil membros das Forças Armadas e bombeiros foram perseguidos, presos, torturados ou expulsos das corporações por se oporem à ditadura. No auge do endurecimento do regime, os serviços secretos buscavam informações sobre focos da resistência militar, assim como a influência do comunismo nos sindicatos, no Exército, na Força Pública e na Guarda Civil.

10. “Naquele tempo, havia civismo e não tinha tanta baderna como greves e passeatas”

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Estudantes que participavam de uma reunião da UNE são presos no interior de São Paulo. Foto: Cristiano Mascaro/DEDOC Abril
Quando os militares assumiram o poder, uma das primeiras medidas que tomaram foi assumir a possibilidade de suspensão dos diretos políticos de qualquer cidadão. Com isso, as representações sindicais foram duramente afetadas e passaram a ser controladas com pulso forte pelo Ministério do Trabalho, o que gerou o enfraquecimento dos sindicatos, especialmente na primeira metade do período de repressão. Afinal, para que as leis trabalhistas vigorem, é necessário que se judicializem e que os patrões as respeitem. Com essa supressão, os sindicatos passaram a ser compostos mais por agentes do governo que trabalhadores. E os direitos dos trabalhadores foram reduzidos à vontade dos patrões. Passeatas eram duramente repreendidas. Quando o estudante Edson Luísa de Lima Souto foi morto em uma ação policial no Rio de Janeiro, multidões foram às ruas no que ficou conhecido com o a Passeata dos Cem Mil. Nos meses seguintes, a repressão ao movimento estudantil só aumentou. As ações militares contra manifestações do tipo culminaram no AI-5. O que aconteceu daí para a frente você já sabe.


Mas, se você já esqueceu ou ainda não está convencido, confira uma linha do tempo da ditadura militar nesse especial que a SUPER preparou sobre o período. Não deixe de jogar “De volta a 1964″, o jogo que mostra qual teria sido sua trajetória durante as duas décadas do regime militar no Brasil.
Fontes: Folha, Estadão, EBC, Brasil Post, Pragmatismo Político, O Globo, R7